40% dos Jogadores Apostam em Operadores Ilegais: Os Dados
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40% dos Jogadores Apostam em Operadores Ilegais: Os Dados
Quando apresento este número em conversas sobre o mercado português, a reação é quase sempre a mesma: incredulidade. Quarenta por cento dos jogadores portugueses continuam a apostar em operadores sem licença. Não é um número que eu inventei – vem de um estudo da AXIMAGE para a APAJO, realizado em 2026. E entre os mais jovens, dos 18 aos 34 anos, a percentagem sobe para 43%.
Este é, sem exagero, o maior problema do mercado regulado de apostas em Portugal. Não é a margem dos operadores, não é o IEJO, não é o rollover das freebets. É o facto de quase metade dos apostadores estar a jogar fora do sistema que existe para os proteger. E a maioria nem sequer sabe.
A Dimensão do Mercado Ilegal em Portugal
O número mais perturbante do estudo da AXIMAGE não é os 40% – é os 61%. Sessenta e um por cento dos utilizadores de plataformas ilegais não sabem que estão a jogar num site sem licença. Não são pessoas que escolheram conscientemente ignorar a regulação. São pessoas que foram direcionadas para esses sites – por publicidade, por influencers, por códigos promocionais – e que assumiram, naturalmente, que estavam num operador legítimo.
Ricardo Domingues, presidente da APAJO, tem denunciado esta situação com dados concretos. No ranking das 15 plataformas mais usadas em Portugal, quatro são não licenciadas – e mantêm-se nesse topo há quatro anos consecutivos. Quatro anos. Isto não é um problema emergente; é uma falha estrutural na capacidade de o sistema proteger os seus utilizadores.
Desde 2015, o SRIJ bloqueou 2 631 sites ilegais e encaminhou 54 processos para o Ministério Público. Os números parecem robustos, mas a realidade no terreno mostra que o bloqueio de sites é um jogo de gato e rato – o operador ilegal muda de domínio e reaparece em dias. A eficácia real do bloqueio depende da velocidade de resposta, e os números de participação em plataformas ilegais sugerem que a resposta não tem sido suficientemente rápida.
O presidente da APAJO foi direto ao descrever a situação: são já vários anos sem qualquer sinal de melhorias na proteção dos consumidores contra o jogo ilegal. Esta frustração reflete uma realidade onde o investimento em regulação e fiscalização não acompanhou o crescimento do mercado ilegal.
Riscos Reais Para Quem Aposta em Sites Sem Licença
Nos meus nove anos neste setor, falei com dezenas de pessoas que perderam dinheiro em operadores ilegais. As histórias seguem um padrão previsível: registo fácil, depósito fácil, primeiras apostas normais – e depois, quando chega a hora de levantar os ganhos, os problemas começam. Levantamentos bloqueados sem explicação, contas encerradas sem aviso, suporte ao cliente que desaparece.
O risco mais imediato é financeiro. Num operador sem licença, os teus fundos não estão protegidos. Não existe segregação de contas – o dinheiro que depositaste pode ser usado pelo operador para as suas próprias despesas. Se o operador encerrar, o teu dinheiro vai com ele. Não há mecanismo de compensação, não há recurso legal em Portugal, não há entidade a quem reclamar.
O risco de dados pessoais é igualmente sério. O registo num operador ilegal exige, tipicamente, os mesmos dados que num operador legal – nome, NIF, morada, dados bancários. Mas sem a supervisão do SRIJ, não há garantia de como esses dados são armazenados, utilizados ou partilhados. Casos de roubo de identidade e fraude financeira ligados a operadores ilegais não são ficção – são ocorrências documentadas.
O risco psicológico é o menos visível mas talvez o mais insidioso. Os operadores ilegais não têm obrigação de implementar mecanismos de proteção ao jogador – e a maioria não o faz. Sem limites de depósito obrigatórios, sem alertas de atividade e sem opção de autoexclusão, o apostador fica completamente exposto aos seus próprios impulsos. Para alguém com tendência para comportamento problemático, a ausência destas proteções pode ser a diferença entre um hábito controlável e uma espiral.
Há ainda o risco de dependência sem rede de segurança. Os operadores licenciados são obrigados a oferecer ferramentas de jogo responsável – limites de depósito, autoexclusão, alertas de atividade. Os operadores ilegais não têm essa obrigação e, tipicamente, não a cumprem. Se desenvolveres um problema de jogo num operador ilegal, não há mecanismo de proteção. A autoexclusão do SRIJ não cobre sites não licenciados.
O Que o SRIJ Tem Feito: Bloqueios e Processos
O esforço do SRIJ não é nulo – mas a escala do problema ultrapassa a capacidade de resposta atual. Os 2 631 sites bloqueados desde 2015 representam uma ação contínua. Mas o bloqueio de um domínio é uma medida técnica que o operador ilegal contorna em horas, usando um novo domínio ou instruindo os utilizadores a aceder via VPN.
Os 54 processos encaminhados ao Ministério Público são uma frente judicial importante, mas Ricardo Domingues da APAJO já expressou publicamente a sua frustração: foram apresentadas queixas contra mais de 30 influencers que promovem operadores ilegais, houve investigações, mas nunca foi deduzida nenhuma acusação. O presidente da APAJO foi categórico ao afirmar que, na prática, o crime compensa.
A questão dos influencers é particularmente sensível. As redes sociais são o principal canal de distribuição dos operadores ilegais para o público jovem. Influencers com milhares de seguidores promovem plataformas sem licença em troca de comissões, e os seus seguidores – muitos deles na faixa dos 18 aos 24 anos – registam-se sem verificar a legalidade do operador. Sem consequências legais reais para quem promove, o ciclo continua.
O que falta? Segundo a APAJO, falta vontade política para reforçar a fiscalização, aumentar as penalizações e criar campanhas de sensibilização à escala do problema. O mercado legal em Portugal gerou 353 milhões de euros em IEJO em 2026. O mercado ilegal – que não paga impostos, não protege consumidores e não contribui para o erário – rouba uma fatia significativa desse potencial. Para perceber como funciona o sistema regulatório e como verificar se um operador é legal, o guia sobre apostas legais e o SRIJ oferece a informação completa.
